Pocicast é o podcast da Pocilga, e apresento-lhes orgulhosamente sua primeira edição, que cobre alguns dos melhores lançamentos de julho. Ficou impossível incluir uma faixa desse, que é sem dúvidas o disco do mês, então procurem ouvir o quanto antes.
Músicas:
01. Discovery - Osaka Loop Line (de LP) 02. Rainbow Arabia - Kabukimono (de Kabukimono EP) 03. jj - My Hopes and Dreams (de jj n° 2) 04. Cass McCombs e Karen Black - Dreams-Come-True-Girl (de Catacombs) 05. Memory Cassette - Asleep At the Party (de Calls & Responses EP) 06. Silk Flowers - Fragmented Mirrors (de Silk Flowers) 07. The Dead Weather - I Cut Like a Buffalo (de Horehound) 08. Oneida - Luxury Travel (de Rated O) 09. Clark - Rainbow Voodoo (de Totems Flare) 10. YACHT - It's Boring/You Can Live Anywhere You Want (de See Mystery Lights)
Há alguns dias fui criticado por causa do hábito de sempre levar meu dinheiro solto em meus bolsos. Sei que é anti-higiênico e até tenho uma carteira velhinha, mas a idéia de ser roubado, ter que cancelar cartões e pedir segunda via de todos os tipos de documentos me impede de levá-la comigo com um mínimo de tranqüilidade. Hoje vi uma ideal para minhas necessidades, bem fina, com apenas um compartimento pra cédulas e outro pra moedas. Não estava à procura do acessório, mas o modelo me agradou tanto que pensei em comprar, quando percebi que era de couro legítimo. Não pretendo entrar na esfera da bioética aqui, e sim esclarecer minha posição para continuar o texto.
Uma coisa levou à outra e me vi procurando por modelos semelhantes em outras lojas, deixando clara minha opção por um produto feito com material que não fosse de origem animal. Algum tempo e alguns olhares tortos depois, tentei uma loja direcionada ao público jovem, acreditando que além de uma maior variedade também contaria com a compreensão de quem me atendesse. É engraçado como as pessoas afirmam que o couro é legítimo como se isso fosse uma grande qualidade pra todo mundo, como se hoje não houvesse pessoas fazendo escolhas diferentes; mas não foi o que aconteceu na Colcci.
Tendo indicado logo de início minha preferência, fui apresentado aos modelos disponíveis, todos em "couro sintético", de acordo com uma das vendedoras. Quando comentei que, mesmo não sendo legítimo, o produto de lá acabava sendo mais caro que todos os outros, ela disse que nenhum mais barato que aquele poderia ser legítimo. É óbvio que com essa retórica a moça gerou desconfiança, então perguntei como ela podia me garantir que o produto dela não era de origem animal. Numa cena digna de Buñuel, a paciente senhorita tentou me convencer de uma vez por todas me mostrando um tipo de etiqueta que vinha dentro da carteira, em formato de couro bovino e feita do mesmo material, com os dizeres: 100% Couro.
Eu também não entendi, mas ela pediu que eu sentisse a textura e percebesse que não era legítimo, adicionando que os vendedores eram treinados para dizer os produtos Colcci eram de couro mesmo não sendo, e que se a bolsa feminina que estava na vitrine fosse realmente legítima, não custaria 800 reais, e sim 3000.
Conclusões: 1) A comissão que a Colcci paga aos seus funcionários deve ser bem generosa, já que o produto em questão custava menos de 100 reais. 2) As técnicas de venda não evoluíram do século passado pra cá. 3) Vivemos numa época em que ser consciente de suas escolhas e dos resultados delas pode significar frustração e persistência.
As imagens criadas por ele podem ter sido profanadas de todas as maneiras possíveis, mas é só uma consequência do poder que elas tiveram sobre a nossa memória coletiva. Hoje ele faria 81 anos.
Continuando a série de posts preguiçosos (falta tempo, juro), uma imagem preciosa que acabei de encontrar: Alain Resnais e Delphine Seyrig durante as filmagens de O Ano Passado em Marienbad.
We've been working on changes to the website for the last few months. We'll be adding new sections as they're ready. The first one to be added is called Record Club, an informal meeting of various people to record an album in a day. An album will be chosen to be reinterpreted and used as a framework. Nothing rehearsed or arranged ahead of time. A track will be uploaded once a week on beck.com as well as through the web sites of those involved with the project.
For this first edition, after lengthy deliberation and coming close to covering Digital Underground's Sex Packets, all present voted in favor of the 'other' Underground's The Velvet Underground & Nico. Participants included this time around are Nigel Godrich, Joey Waronker, Brian Lebarton, Bram Inscore, Yo, Giovanni Ribisi, Chris Holmes, and from Iceland, special guest Thorunn Magnusdottir, and myself. Thanks to everyone who helped put this together, and to all of you for indulging in this experiment. More soon.
Bek
Em tempos de Nouvelle Vague (dá pra acreditar que eles já têm três álbuns?) e Scarlett Johansson, essa brincadeirinha do Beck vem a calhar. Claro que o ideal seria que todos deixassem essas obras-primas em paz e fossem trabalhar, mas ao menos esse projeto soa mais espontâneo e pelo que parece não vai ser lançado comercialmente.
Sandra: It's not natural, is it? Jamie: What ain't? Sandra: A girl her age being into Mama Cass. Leah: She's got a really beautiful voice. Sandra: And what's wrong with Madonna? Leah: She's a slag. Sandra: Hypocrite.
Dirty Projectors - Bitte Orca: O primeiro choque pós-Merriweather Post Pavillion só veio quase no meio do ano, mas que choque! Esse híbrido de chamber pop, indie rock e freak folk (pra quem gosta de rótulos) tem embalado das minhas idas à universidade às horas insones e é um dos prazeres auditivos mais completos que experimentei esse ano. Está aqui a intuitividade que faz tanta falta em bons álbuns como Veckatimest, sem prejudicar o arranjamento complexo, que também em nada prejudica a gigante sensibilidade pop. Stillness Is the Move é um single tão loucamente pop como My Girls, remetendo a Mariah Carey, CocoRosie e afrobeat, ao mesmo tempo.
Sonic Youth - The Eternal: Quem dera todas as bandas envelhecessem como o Sonic Youth, ou pelo menos uma boa parte delas, aquelas importantes pra nós. Talvez não haja mais interesse em revolucionar, mas simplesmente ser o que são, fazendo um trabalho tão vigoroso que desanima pensar no tanto de gente nova e ruim que tem aparecido. Se todos os décimos sextos (ou mesmo os primeiros) discos tivessem pelo menos uma What We Know...
Tentando organizar um pouco a parte musical dessa pocilga (a cobertura de abril e maio foi nula), resolvi fazer um post com lançamentos (oficiais) por semana. Lembrando que este blog não é muito mais que um exercício e nem tem um ano de vida ainda, então com o tempo pego o ritmo.
Franz Ferdinand - Blood: O rock independente dessa década ganhou uma forma bem definida através dos anos, um estereótipo que no fundo, no que tange à música e ao mercado, nada tem de independente. Me recordo de quatro discos que me parecem seminais nessa fase, e depois deles tudo pareceu consequência: Is This It (The Strokes, 2001), Turn on the Bright Lights (Interpol, 2002), Echoes (The Rapture, 2003) e Franz Ferdinand (2004). Mesmo o que se seguiu na história dessas bandas não passava de tentativa de continuar lucrando com o que já deu certo. No início do ano fomos surpreendidos por Tonight, terceiro do Franz Ferdinand, que se não era tanto uma exploração de novos rumos, pelo menos firmou a banda como melhores no que fazem e remanescente mais respeitável da onda. Blood nada mais é do que uma reconstrução dub daquele, uma brincadeira do produtor Dan Carey que, usando majoritariamente elementos das faixas originais, mostrou o quanto o quarteto escocês ainda é relevante. Se não exclusivamente pela música, também pela esperteza de fugir do inconsistente "disco de remixes" e pelo senso de humor.
Prefuse 73 - The Forest of Oversensitivity: Depois de lançar três (!) álbuns de diferentes projetos entre abril e maio (!), Scott Heren resolveu soltar esse EP sob seu nome mais conhecido. A primeira faixa lembra muito o Four Tet mais lounge, adicionando vocais em vocoder, e vem seguida pelo folk-latino-psicodélico de Relief Choir. Depois, duas novas versões de faixas de Everything She Touched Turned Ampexian, lançado em abril: o glitch-hopPreparation's Kids Choir e a etérea Simple Loop Choir. Talvez seja melhor começar por aqui e depois ouvir tudo que ele já fez esse ano.
Malcolm Middleton - Waxing Gibbous: Os dois integrantes do Arab Strap estão se mantendo tão ocupados quanto na época em que o projeto existia. Os discos lançados pelos dois depois de The Last Romance (2006, último da dupla) acabam de somar 5 com essa produção estranhamente exuberante de Middleton. Estamos a uma distância enorme de Sleight of Heart, álbum de 2008 que, comparado a este, serviu no máximo pra matar saudade. Algo próximo do pop de Damon Gough (Badly Drawn Boy) e, confesso, com uma certa dose de guilty pleasure.
Patrick Wolf - The Bachelor: Tento manter minha cabeça mais aberta possível, principalmente por acreditar que a visão de um artista pode não estar próxima da minha maneira de encarar o mundo, mas se é executada com integridade merece atenção. Por isso até me excitei com a idéia de ouvir um disco (na verdade, a primeira metade de um projeto maior chamado Battle) no qual Patrick Wolf lida com suas origens familiares. Infelizmente, The Bachelor não teve metade da inspiração que eu esperava, e se de fato teve alguma, foi aplicada de forma desinteressante. No fim, poucos momentos memoráveis e o sentimento de um todo extremamente entediante.
PQP! Será que ainda veremos um vídeo melhor que esse até o fim do ano? Conseguiu deixar pra trás Fever Ray e Rainbow Arabia, além dos dois do Sebastian Tellier (Roche e Kilometer). Veckatimest sai dia 26 pela Warp, comentarei em breve.
Um novíssimo (lançado hoje, digitalmente) e outros nem tanto:
Deerhunter - Rainwater Cassette Exchange: Meu disco preferido da turma do Bradford Cox ainda é Cryptograms (2007), mas é inegável que a banda tem se tornado mais sólida desde então. Apesar de arriscarem o território folk em Game of Diamonds, as cinco músicas lançadas hoje não oferecem muitas novidades aos ouvidos acostumados, mas depois do sucesso do LP duplo do ano passado, tanta concisão em 15 minutos são mais que bem-vindos.
The Breeders - Fate to Fatal: Tudo indica que as irmãs Deal entraram numa fase bastante ativa. Os hiatos entre seus discos são notáveis, por isso comemoremos esse lançamento pouco tempo depois de Mountain Battles e da inesquecível apresentação no Planeta Terra 2008 [por falar nisso, que surpresas nosso festival mais open-minded trará na próxima edição?]. Um EP livre e despreocupado, lançado independentemente (até as capas das 1000 cópias em vinil foram impressas por elas mesmas), que começa com a tipicamente Breeders Fate to Fatal, depois tem colaboração com Mark Lanegan (The Last Time), versão inusitada de Bob Marley (Chances Are) e termina com uma das porradas musicais do ano, Pinnacle Hollow, com seus poucos versos aparecendo apenas no meio da faixa, cantados pelas gêmeas contra a base de 2 guitarras e baixo: On your road I hang around, oh, up and down your road I hang around; de matar.
Suckers - Suckers: Debut da banda do Brooklyn co-produzido por Anand Wilder (Yeasayer). Quatro músicas para cantar a plenos pulmões e levantar o astral instantaneamente. Alguns poucos ecos de Arcade Fire e Clap Your Hands Say Yeah, mas o som é animador e gera altas expectativas para próximos lançamentos.
Trilha sonora: Yesterday and Today, novo disco do sueco Axel Willner, também conhecido como The Field. Chega às lojas dia 19, mas claro que já está rolando por aí. Em breve falarei mais dele, enquanto isso ouçam aqui.
Veró atropela um cachorro enquanto volta para casa. Esse é o ponto de partida da obra mais recente de Lucrecia Martel, "A Mulher sem Cabeça". A própria diretora, assustada com a reação negativa dos espectadores no Festival de Cannes do ano passado, afirmou tratar-se de seu filme mais explícito. De fato, seus sentidos talvez sejam tão óbvios que se pode traçar um paralelo entre os personagens e os espectadores que, enfurecidos, acusaram ao fim da projeção a artista de não ter chegado a lugar nenhum. É um estado de acomodação, de analfabetismo emocional e, por que não, de cegueira que não se espera de gente que se aventura em obras como essa, cuja única exigência é o comprometimento com a visão da personagem, uma maneira de enxergar que sofreu um forte solavanco e se posicionou em um lugar diferente.
Esse lugar que foi esperado e nunca chegou, porque estava ali, logo nos primeiros minutos, quando o acidente parece fundir as duas realidades distintas às quais somos apresentados antes mesmo de conhecer Veró: crianças brincando; a classe baixa ao ar livre e a classe média presa dentro de carros. Martel não joga conosco, desde a comparação óbvia entre os limites pré-estabelecidos para a juventude de acordo com o meio em que nascem, até a imagem perfeitamente nítida do cachorro atropelado deixado para trás, é um conjunto de elementos claros que geram nessa mulher que já viveu metade de sua vida uma enorme perplexidade quando são percebidos em sua totalidade. A partir do momento em que um cachorro fica indefeso diante de um carro, como também ficaria uma criança.
A perplexidade - que em muitos momentos se transforma em culpa - é o único guia do espectador, o sentimento de perceber que faz parte de um grupo que simplesmente nasce com privilégios, não os conquista e nem talvez os mereça, um grupo que é servido por outro para o qual essa relação de servidão parece ser a única alternativa e a encara sem sofrimento ou revolta, apenas como a própria natureza das coisas. Tamanha é a sofisticação de Martel como autora e de María Onetto como atriz, que conseguiram transformar essas descobertas do óbvio numa jornada psicológica minimialista que vai muito além - na forma e no conteúdo - da tradição latina de filme social.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Ouve-se falar dos olhos de Bette Davis, Frank Sinatra, Paul Newman, Elizabeth Taylor... mas por que ninguém nunca fala dos de Miles Davis?
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Foram divulgados os filmes que serão exibidos no festival esse ano, bem como os participantes do júri, que será presidido por Isabelle Huppert. Impossível não se animar vendo Resnais (não era selecionado desde 1980, por "Meu Tio da América") junto com Tarantino, Von Trier, Bellochio, Haneke, Tsai e outros. Muitas expectativas e curiosidade pra ver, por exemplo, se esse primeiro Sam Raimi depois dos três "Homem-Aranha" é digno; ou se Heitor Dhalia finalmente fez algo notável. O cartaz remete a "A Aventura", de Antonioni, uma obra que merece sempre ser revisitada.